O peso dos números

A China movimentou US$ 171 bilhões com o Brasil em 2025. Os Estados Unidos ficaram em US$ 83 bilhões — menos da metade. Em maio de 2026, o porta-aviões nuclear USS Nimitz operou ao largo do litoral brasileiro em exercício conjunto com a Marinha do Brasil. O país participou com um submarino de ataque e duas fragatas.

Esses dois fatos, vistos juntos, explicam a política externa brasileira melhor do que qualquer discurso oficial.

O Brasil depende da China para se financiar. E depende dos Estados Unidos para garantir que o Atlântico Sul continue sendo um espaço de influência brasileira. Esse não é um paradoxo. É uma escolha estratégica com nome: múltiplo alinhamento.

O que é o múltiplo alinhamento

O conceito foi sistematizado em novembro de 2025 pelo cientista político Oliver Stuenkel, em relatório publicado pelo Belfer Center de Harvard como parte do projeto Middle Powers. O argumento central é direto: países como o Brasil, a Índia e a Indonésia não são “não-alinhados” no sentido clássico da Guerra Fria.

São países que alinham interesses específicos com atores específicos, dependendo do tema.

Com a China: comércio de commodities, financiamento de infraestrutura e cooperação climática. Com os EUA: segurança marítima, cooperação de defesa e acesso a tecnologia avançada. Com ambos: a posição de país que não pode ser ignorado em nenhum dos dois tabuleiros.

Stuenkel descreve essa postura como “ativa e coerente” — não como hesitação ou fraqueza. O Brasil tem trabalhado essa lógica desde ao menos os anos do primeiro governo Lula, refinando-a ao longo de governos de diferentes matizes ideológicos.

O Atlântico Sul como novo front

O exercício Southern Seas 2026 foi a 11ª edição do treinamento conjunto entre as marinhas do Brasil e dos EUA. O Brasil participa como Major Non-NATO Ally — uma designação que garante acesso preferencial a equipamentos militares americanos. Não é parceria vazia.

O que mudou em 2026 é o contexto regional. A Argentina de Milei autorizou a presença de navios e aeronaves americanas no Atlântico Sul pela primeira vez desde a Guerra das Malvinas. Buenos Aires convidou uma esquadra de combate americana para uma região que o Brasil sempre tratou como seu espaço natural de liderança.

A resposta brasileira foi rápida. O Brasil assumiu em 2026 o comando de uma aliança com 24 países para monitorar rotas marítimas no Atlântico Sul. A mensagem foi enviada sem declarações: a liderança no Atlântico Sul é brasileira, e o Brasil não pretende abrir mão dela.

O Atlântico Sul não é apenas um corredor marítimo. É a fronteira estratégica do Brasil com o mundo. Quem controla esse espaço define o peso do país nas negociações globais.

A pressão pela escolha

Washington quer que o Brasil escolha um lado na competição tecnológica com a China. Isso significa: sem Huawei em redes 5G críticas, sem investimentos chineses em infraestrutura sensível, sem participação em projetos que possam dar a Pequim acesso a dados estratégicos.

Pequim quer o oposto. Quer que o Brasil expanda os fluxos comerciais, aceite investimentos em minerais críticos — especialmente lítio e terras raras — e evite alinhar-se publicamente às pressões americanas.

O Brasil tem resistido às duas pressões. Não por omissão. Por cálculo.

Em 2025, o superávit comercial brasileiro com a China chegou a US$ 29,1 bilhões — equivalente a 43% de todo o saldo positivo do país no ano. Abrir mão da China significa abrir mão de quase metade do resultado comercial que ancora o equilíbrio fiscal do governo. Nenhuma ideologia resiste a esse número.

A comparação que explica o momento

A estratégia tem um precedente histórico. Durante a Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas manteve os dois lados interessados no Brasil até que as condições tornaram a escolha inevitável — e vantajosa. O Brasil só entrou no conflito ao lado dos Aliados quando as compensações foram suficientes: a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e o apoio americano à industrialização.

O paralelo não é perfeito. Mas a lógica é a mesma: manter os dois polos dependentes o suficiente do Brasil para que nenhum force uma ruptura sem custo.

A diferença de 2026 é que a pressão chegou pela fronteira atlântica. A Argentina mudou de lado. O Atlântico Sul, que o Brasil considerava seu espaço natural de influência, passou a ser disputado.

O que o Brasil ganha — e o que arrisca

O ganho imediato é a autonomia. Em um mundo que exige escolhas binárias, o Brasil ainda consegue sentar nos dois lados da mesa. Isso tem valor econômico — evita choques comerciais abruptos — e valor estratégico, com influência real em fóruns como o BRICS, o G20 e a ONU.

O risco é a erosão dessa posição pelo tempo. A competição EUA-China vai se intensificar. A pressão por alinhamento vai crescer. A Argentina já escolheu. O México está sendo pressionado. A margem para o Brasil continuar operando no meio tende a diminuir.

O Atlântico Sul, os minerais críticos, a floresta amazônica e a produção agrícola tornam o Brasil relevante para os dois polos. Esse é o trunfo. A questão, cada vez mais urgente, é saber usá-lo antes que a janela se feche.

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