A Copa do Mundo de 2026 começa em oito dias. É o maior torneio da história do futebol: 48 seleções, três países anfitriões, 104 jogos espalhados por 16 cidades nos Estados Unidos, no Canadá e no México. O Brasil chega como um dos favoritos. Mas o que está em jogo vai muito além do campo.
Pela primeira vez, uma Copa será disputada simultaneamente em três países. A escolha não foi só logística. Foi também política. Para Trump, receber o mundo em solo americano num momento de retração global é um sinal deliberado: os Estados Unidos ainda comandam o hemisfério. O futebol é um instrumento de soft power, e Washington sabe disso. A Copa se encaixa com precisão na mesma lógica de reafirmação da influência americana sobre a América Latina que Trump vem aplicando desde o início do segundo mandato.
O futebol não é o esporte dominante nos Estados Unidos. Mas receber a Copa do Mundo transforma o país em palco durante seis semanas. Gera receita, gera visibilidade e, sobretudo, gera narrativa. Quando 48 seleções cruzam a fronteira americana, a mensagem implícita é que, apesar do discurso isolacionista, o mundo ainda converge para os EUA.
O que o Brasil precisa provar
Para o Brasil, o torneio tem uma dimensão diferente. Não é só mais uma Copa. É a primeira desde 2022, quando a eliminação para a Croácia nos pênaltis deixou uma cicatriz coletiva que ainda dói. O país precisa de um título. Não porque vitória numa Copa resolva algum problema real, mas porque o futebol é um dos poucos momentos em que o Brasil se enxerga com coesão.
Isso tem história. O Brasil é o único país com cinco títulos mundiais. Cada Copa produz um ciclo completo de expectativa, mobilização e, às vezes, trauma. A derrota para a Alemanha em 2014 ainda é chamada de Mineirazo. A eliminação de 2022 gerou protestos nas ruas. Uma vitória em 2026 não apaga eleições divididas nem resolve a inflação, mas cria um momento de unidade que o país raramente experimenta fora do campo.
Parte dessa mobilização começa antes de a bola rolar. Nas escolas e nos escritórios, o ritual se repete há décadas. O álbum oficial de figurinhas da Copa do Mundo 2026 já circula entre crianças e adultos que tentam completar a coleção antes do apito inicial. É um mercado bilionário disfarçado de nostalgia, e o Brasil é um dos maiores consumidores do planeta.
A seleção entra na fase de grupos com um elenco renovado e um dos melhores jogadores do mundo em campo. Vinicius Júnior chega ao torneio como referência técnica e emocional do time. Rodrygo, Endrick e um meio-campo construído nos últimos dois anos colocam o Brasil entre os três ou quatro favoritos reais ao título. Mas favoritismo no futebol não é garantia. A Copa de 2022 provou isso da pior forma.
A Copa de 2026 também é um teste para a política externa brasileira. Lula tem apostado numa posição de equilíbrio entre Washington e Pequim. Manter esse equilíbrio fica mais difícil quando o torneio acontece literalmente no território do principal rival geopolítico da China. Aparecer nos Estados Unidos, comemorar vitórias em solo americano e gerar imagens de proximidade com autoridades americanas produz capital político que independe do resultado da seleção.
Há ainda a dimensão continental. A Copa de 2026 é, em certo sentido, uma Copa das Américas ampliada. México, Canadá e Estados Unidos não são apenas anfitriões: são participantes. A América Latina entra com mais seleções do que nunca. O hemisfério vai se olhar no espelho durante seis semanas. O que cada país enxerga nesse espelho depende muito de como a seleção se sai.
O que é certo é que o mundo vai parar em 11 de junho. E o Brasil vai parar junto, talvez mais do que qualquer outro país. A seleção não é apenas um time de futebol. É uma das poucas coisas que ainda pertence a todo mundo ao mesmo tempo, independente de quem você votou, onde mora ou o que pensa do governo. Em 2026, isso vai acontecer no quintal dos Estados Unidos. Trump vai tentar capitalizar sobre o evento. O Brasil vai tentar ganhar o hexa. E o mundo vai assistir às duas coisas ao mesmo tempo.












