Em fevereiro de 2026, o preço do barril de petróleo Brent saltou de US$ 65 para mais de US$ 120 em menos de duas semanas. O gatilho foram os ataques israelenses e americanos a instalações iranianas. Nenhuma bomba precisou atingir um poço de petróleo. Bastou a ameaça de que o Estreito de Ormuz, por onde passam 20 milhões de barris diários, 20% do fluxo global, pudesse ser bloqueado. O mercado calculou o risco e o preço subiu.
O petróleo nunca foi apenas uma commodity. Desde a Segunda Guerra Mundial, é o recurso que mais diretamente conecta conflitos militares, decisões eleitorais e equilíbrio de poder entre nações. Quem controla o petróleo controla algo mais do que energia. Controla o custo de produção de qualquer coisa que usa energia para ser fabricada ou transportada, que é praticamente tudo.
A OPEP foi criada em 1960 exatamente para transformar esse controle em poder coletivo. Em 1973, o embargo árabe que quadruplicou o preço do barril derrubou governos na Europa, gerou recessão nos EUA e redesenhou a política global por décadas. Ficou claro que nenhuma grande potência industrial poderia ignorar o preço do petróleo sem pagar um custo político imediato.
Em 2026, o petróleo continua sendo arma. As sanções americanas sobre o petróleo russo depois da invasão da Ucrânia forçaram Moscou a redirecionar exportações para a Índia e a China, com desconto. As sanções sobre o Irã nunca funcionaram completamente porque a China seguiu comprando o petróleo iraniano, com desconto. Washington se viu obrigado a flexibilizar as restrições para não provocar uma alta de preços que prejudicaria os próprios americanos antes das eleições.
Esse é o dilema estrutural da weaponização do petróleo. Sancionar um produtor funciona se os compradores cooperam. Quando não cooperam, o efeito é deslocar o comércio, não suprimi-lo. E o país que aplica a sanção muitas vezes sofre consequências econômicas maiores do que o alvo.
Para o Brasil, o petróleo como arma geopolítica tem dois lados. O país é exportador líquido de energia e se beneficia de preços mais altos. O conflito Irã-Israel empurrou o crescimento brasileiro ao melhorar as receitas de exportação de petróleo e commodities. Mas o Brasil também importa derivados, e uma alta de preços prolongada pressiona a inflação doméstica e o custo de produção da indústria nacional.
O Estreito de Ormuz, o Canal de Suez, o Estreito de Malaca e o Estreito de Taiwan são os quatro pontos de estrangulamento do comércio global de energia. Qualquer conflito que ameace um deles move o mercado inteiro. Nenhum deles está próximo do Brasil, mas todos afetam o país de forma imediata. O preço do barril é talvez o número mais globalizado que existe. Sobe em Teerã, sente-se em São Paulo no mesmo dia.
Enquanto o mundo não tiver uma matriz energética genuinamente diversificada, o petróleo permanece como a arma mais democrática da geopolítica. Democrática não no sentido de justa, mas no sentido de que qualquer país com reservas suficientes pode usá-la. E qualquer país sem elas fica exposto.
Foto: mypubliclands — Public domain, via Wikimedia Commons












