Quem foi o Marquês de Pombal: o estadista que reconstruiu Portugal e moldou o Brasil

Foto: António Onofre Schiappa Pietra (1796–18??) / Wikimedia Commons

Em 1 de novembro de 1755, um terremoto de magnitude estimada em 8,5 destruiu Lisboa. O incêndio que se seguiu durou seis dias. Entre 12.000 e 15.000 pessoas morreram e cerca de 10.000 edifícios foram destruídos. Em meio ao caos, um ministro organizou o resgate, mandou enterrar os mortos e já desenhava uma cidade nova. Seu nome era Sebastião José de Carvalho e Melo. A história o conhece como o Marquês de Pombal.

Nasceu em Lisboa em 13 de maio de 1699, filho de uma família de pequena nobreza. Estudou direito na Universidade de Coimbra e seguiu a carreira diplomática. Foi embaixador em Londres e em Viena antes de ser chamado por Dom José I para assumir a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, em 1750. A catástrofe de 1755 foi o que o transformou de ministro em homem de Estado.

Sua resposta ao terremoto virou referência histórica em gestão de crise. Enquanto nobres e clérigos debatiam e rezavam, Pombal agiu. Mandou recolher cadáveres antes que a epidemia se espalhasse. Distribuiu alimentos e abrigo. Convocou engenheiros militares para um plano de reconstrução urbana. A nova Lisboa que emergiu das ruínas seguia uma grade regular, com ruas largas e prédios construídos sobre a “gaiola pombalina”, uma estrutura de madeira antissísmica que ainda sustenta parte da Baixa lisboeta.

O episódio consolidou sua autoridade. Com Dom José I como aliado fiel, governou Portugal por quase três décadas como primeiro-ministro de fato. Seu programa era claro: modernizar o Estado, fortalecer a economia e eliminar qualquer poder que ameaçasse a soberania da coroa.

A expulsão dos jesuítas e o controle do Brasil

O maior confronto de Pombal foi com a Companhia de Jesus. Os jesuítas controlavam as missões no interior da América do Sul, educavam as elites portuguesas e respondiam a Roma, não a Lisboa. Em 1759, expulsou a ordem de Portugal e de todas as suas colônias, confiscou seus bens e fechou seus colégios.

No Brasil, as consequências foram profundas. As missões jesuíticas, que funcionavam como um Estado paralelo no interior do continente, foram desmanteladas. Populações indígenas que viviam sob tutela religiosa passaram para a administração civil. A língua geral baseada no tupi, usada pelos jesuítas nas missões, perdeu espaço para o português. Pombal impôs o idioma da metrópole por decreto. Essa decisão teve peso duradouro na formação de um Brasil linguisticamente unificado, e é parte da história de como o português se tornou um idioma com alcance global, atravessando continentes e oceanos.

Em 1763, transferiu a capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro. A escolha era estratégica: o Rio ficava mais próximo das regiões mineradoras do Centro-Sul e tinha um porto mais adequado para o comércio atlântico. A mudança acelerou o deslocamento do centro de gravidade econômico e político do Brasil para o Sul.

Pombal também extinguiu as capitanias hereditárias, que fragmentavam o poder no território colonial, e criou companhias de comércio para organizar o escoamento de produtos brasileiros. A Companhia do Grão-Pará e Maranhão e a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba buscavam romper a dependência do comércio colonial em relação a intermediários ingleses e holandeses.

Esse era um dos motores centrais de sua política. O Tratado de Methuen de 1703 havia criado uma relação econômica assimétrica: Portugal exportava vinho e importava têxteis ingleses, enquanto o ouro do Brasil fluía para Londres. Pombal não desfez o tratado, mas construiu estruturas produtivas que dariam a Portugal maior margem de manobra frente à dependência britânica.

No campo da educação, reformou a Universidade de Coimbra, criou cursos de medicina e matemática e fundou escolas públicas para substituir os colégios jesuítas. Foi uma modernização autoritária, típica do despotismo ilustrado do século XVIII. Pombal não queria uma sociedade mais livre. Queria um Estado mais forte e uma economia menos submissa.

Seus métodos eram duros. Processos políticos, prisões sem julgamento, execuções públicas. O caso mais famoso foi o do Duque de Aveiro, acusado de tentativa de assassinato do rei em 1758. Pombal usou o episódio para destruir famílias nobres rivais. A tortura e a fogueira foram usadas publicamente. Muitos historiadores descrevem o período como um terror de Estado disfarçado de reforma esclarecida.

Sua queda veio com a morte de Dom José I, em 1777. A rainha Dona Maria I, que desprezava Pombal, o afastou imediatamente do poder. Tirou seus cargos, reabilitou suas vítimas e mandou instaurar processo contra ele. Pombal morreu em 8 de maio de 1782, na cidade que deu nome ao seu título, antes de ser formalmente julgado.

Seu legado divide historiadores até hoje. Em Portugal e no Brasil, há estátuas, avenidas e praças com seu nome. A Praça Marquês de Pombal, em Lisboa, tem sua estátua no alto de uma coluna, olhando para a cidade que ajudou a reconstruir. No Brasil, seu nome aparece em bairros e municípios espalhados pelo país.

O que Pombal representa vai além do personagem. Ele encarna uma ideia: a de que um Estado com visão clara e determinação executiva pode transformar uma nação em colapso. Essa ideia tem defensores e críticos legítimos. O que não se discute é que as decisões tomadas em Lisboa entre 1750 e 1777 moldaram o Brasil muito antes de o Brasil existir como país independente.