CPLP: o que é, para que serve e por que o Brasil subestima o maior bloco lusófono

Foto: Luís Ascenso — CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa existe desde 1996. Reúne nove países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Juntos, somam mais de 300 milhões de pessoas, presença em quatro continentes, recursos naturais imensos e uma língua comum que é a quinta mais falada do mundo. Com tudo isso, a CPLP ainda é pouco mais do que um nome que a maioria dos brasileiros não consegue explicar.

Parte do problema é estrutural. A CPLP foi criada com objetivos amplos e orçamento pequeno. Seu secretariado em Lisboa tem menos funcionários do que muitas prefeituras médias. Seus mecanismos de tomada de decisão exigem consenso entre os nove membros, o que na prática paralisa iniciativas mais ambiciosas. O bloco existe, mas opera muito abaixo do seu potencial.

Outra parte do problema é brasileira. O Brasil é de longe o maior membro da CPLP em população, PIB e peso diplomático. Mas não tem tratado o bloco como prioridade estratégica. Nas últimas décadas, a política externa brasileira oscilou entre o Mercosul, o BRICS e as relações bilaterais com EUA e China. A CPLP ficou como compromisso de protocolo, não como aposta real.

Esse subestimação tem custo. Angola é hoje uma das economias mais dinâmicas da África Subsaariana. Moçambique tem reservas de gás natural que atraem investimento de todo o mundo. Cabo Verde tem uma posição geográfica estratégica no Atlântico que faz olhos brilharem em Washington e Pequim. Portugal é um hub logístico europeu e membro da OTAN. Timor-Leste está no centro do Sudeste Asiático. O Brasil teria acesso privilegiado a todos esses países por meio de uma estrutura que já existe e já tem personalidade jurídica internacional.

A língua comum é um ativo real. Ela reduz custos de transação, facilita acordos de reconhecimento mútuo de diplomas, simplifica cooperação técnica. A lusofonia como comunidade de falantes de português tem peso econômico e cultural que poucos países da mesma língua exploram tão pouco quanto o Brasil.

Nos últimos anos, a China e os EUA perceberam o potencial dos países lusófonos africanos e intensificaram sua presença neles. Portugal negociou acordos de base militar com os EUA. A China investiu pesado em Angola e Moçambique. O Brasil foi chegando depois, quando ainda havia espaço, mas sem a consistência necessária para consolidar posição.

Uma CPLP fortalecida não precisa ser uma aliança militar nem um mercado comum. Pode começar com o que já existe: coordenação diplomática em instâncias como a ONU, mobilidade de trabalhadores qualificados, reconhecimento mútuo de títulos universitários, cooperação em saúde e agricultura. São mecanismos simples que criariam benefícios reais e construiriam o hábito de cooperar antes de tomar decisões maiores.

O Brasil tem 215 milhões de habitantes e o maior PIB da comunidade. Tem tudo para ser o motor da CPLP. O que falta é tratar o bloco como o que ele pode ser: o grupo mais diverso e potencialmente influente de países de mesma língua no mundo. Um recurso que o Brasil criou junto com outros, esqueceu durante anos e ainda tem tempo de usar.

Foto: Luís Ascenso — CC BY 3.0, via Wikimedia Commons