Política externa do Brasil em 2026: a aposta dupla entre o G7 e o Suriname

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Lula desembarcou em Évian-les-Bains, na França, nesta terça-feira, para a décima participação consecutiva do Brasil na Cúpula do G7. O país não integra o grupo das sete maiores economias industrializadas do mundo. Mesmo assim, foi convidado outra vez, e o Planalto trata o convite como prova de protagonismo. A leitura merece ceticismo. Três semanas antes, a quase dez mil quilômetros de distância, o governo fechou um acordo que revela mais sobre os limites reais dessa diplomacia do que qualquer discurso em solo europeu.

Em 27 de maio, a presidente do Suriname, Jennifer Geerlings-Simons, chegou a Brasília. No dia seguinte, ela e Lula assinaram doze atos bilaterais sobre petróleo, conectividade, programas sociais e agronegócio. Geerlings-Simons ainda cumpriu agenda com empresários brasileiros, discutindo investimentos em infraestrutura de exportação. Nenhuma manchete internacional registrou o encontro. O contraste é revelador. Diante de um vizinho pequeno, o Brasil consegue fechar acordos concretos, com data, assinatura e escopo definido. Diante das grandes potências reunidas no G7, o papel reservado ao país segue sendo o de convidado que fala, mas não decide.

O governo apresenta o comparecimento à cúpula como conquista de política externa. Lula afirmou que o Brasil retorna ao G7 “levando a voz do Sul Global” e prometeu criticar o protecionismo dos países desenvolvidos. A frase tem problema de origem. O mesmo governo que se posiciona como porta-voz dos países em desenvolvimento mantém o Mercosul paralisado por divergências internas e cultiva ambiguidade estratégica entre Washington e Pequim, sem definir com clareza de que lado do tabuleiro o Brasil realmente está. Falar em nome do Sul Global exige coerência que a própria política externa brasileira ainda não demonstrou.

A fragilidade não para na política externa. Enquanto Lula discursa sobre multilateralismo às margens do Lago de Genebra, o país enfrenta juros ainda elevados, arrecadação pressionada e indicadores fiscais que pioraram ao longo de 2026. Organismos internacionais reduziram a projeção de crescimento do Brasil para este ano. Sustentar a narrativa de potência emergente no exterior fica mais difícil quando a política econômica doméstica patina entre ajustes fiscais incompletos e metas que se acumulam sem se cumprir.

Lula chega como um dos primeiros chefes de Estado a desembarcar, antes mesmo de Macron concluir as recepções oficiais da cúpula. Não há expectativa de reunião bilateral formal com Trump, sinal de que a relação com Washington segue mais fria do que o discurso oficial admite. A pauta da paz no Oriente Médio domina a abertura do encontro, e o Brasil entra nela como voz convidada, sem poder de decisão sobre o resultado.

Essa condição de convidado permanente, nunca membro pleno, se repete desde 2023, quando o governo atual retomou os convites regulares ao grupo. O argumento usado para justificar o assento é real: o Brasil é uma das maiores economias agrícolas do planeta, fornecedor relevante de alimentos e energia, referência diplomática entre países em desenvolvimento. Esses atributos garantem presença à mesa. Não garantem poder de decisão sobre o que sai dela, e o governo tem dificuldade em admitir essa diferença em público.

É por isso que os acordos com o Suriname pesam mais do que a cobertura de imprensa sugere, ainda que o Planalto prefira investir energia política na fotografia do G7. A cúpula oferece palco e visibilidade. A parceria sul-americana oferece algo mais raro: controle direto sobre infraestrutura, segurança e logística numa fronteira que o Brasil historicamente tratou como periferia. A rota marítima pelo norte do território brasileiro, prevista nos acordos de maio, conecta o país ao Caribe sem depender de trajetos mais longos pelo Atlântico Norte. Essa fronteira que liga o Brasil ao Atlântico Sul deixou de ser periferia geográfica para se tornar ativo estratégico, mas é um ativo que o governo trata como nota de rodapé diante do apelo midiático de uma cúpula europeia.

O combate ao crime organizado transnacional, outro eixo dos acordos com o Suriname, ganhou urgência depois que os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O episódio expôs a fragilidade brasileira num tema de segurança que afeta diretamente a soberania nacional sobre a própria fronteira norte. Resolver isso com acordos bilaterais discretos tem mais impacto prático do que qualquer discurso sobre multilateralismo pronunciado em Évian-les-Bains.

A equação por trás dessa diplomacia é difícil de sustentar. Usar o protagonismo regional para justificar relevância global só funciona quando esse protagonismo é real e verificável no terreno, não um discurso para consumo externo. Ser convidado de honra dez vezes consecutivas não equivale a ter peso nas decisões que mudam o jogo, como tarifas, sanções ou regras de comércio digital. O governo Lula repete a fórmula do simbolismo internacional desde 2023, em cada cúpula, em cada convite renovado. Falta responder se essa repetição produz algum ganho concreto para o país, traduzido em comércio, investimento ou segurança, ou se apenas mantém o Brasil na fotografia, sem assento real na mesa onde as decisões são tomadas.