Em 28 de fevereiro de 2026, aviões israelenses e americanos atacaram instalações militares e nucleares no Irã. O preço do petróleo, que estava a US$ 65 o barril, saltou para US$ 120. O mundo entrou em modo de alerta. O Brasil, exportador líquido de energia, viu sua projeção de crescimento subir.
Essa inversão vale ser entendida.
Israel e os Estados Unidos lançaram uma operação conjunta para destruir a capacidade militar e nuclear iraniana. O lado israelense nomeou a missão “Leão Rugidor”. O Pentágono, “Fúria Épica”. Líderes militares e autoridades civis foram alvejados. O objetivo declarado era a mudança de regime no Irã. A resposta de Teerã foi fechar o Estreito de Ormuz.
O Estreito de Ormuz é o corredor marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Por ele passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Com o fechamento, o mercado perdeu 13,7 milhões de barris por dia de uma só vez. O Fundo Monetário Internacional descreveu o choque como a maior perturbação no fornecimento mundial de energia desde os anos 1970 e, em abril, revisou o crescimento global de 3,3% para 3,1%. A inflação deve subir de 3,8% para 4,4%. Em um cenário de conflito prolongado, o crescimento pode cair para 2% em 2026.
O Oriente Médio perdeu mais de dois pontos percentuais nas projeções de crescimento. A Europa, que já vinha anêmica, sentiu o encarecimento da energia. A Ásia reorientou rotas de importação às pressas. E o Brasil, que não tem bases militares na região, não emite moeda de reserva e não integra o G7, ficou de fora do lado ruim do choque.
O país é exportador líquido de energia. Petróleo do pré-sal, etanol, geração hidroelétrica. Quando o Estreito de Ormuz fecha e o mundo perde 13,7 milhões de barris diários, compradores precisam de alternativas urgentes. O Brasil virou uma delas. As exportações de petróleo brasileiro para a China saltaram 122% no primeiro trimestre de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. São 16 milhões de toneladas em três meses. A China, que depende do Golfo Pérsico para parcela significativa de sua energia, acelerou a diversificação de fornecedores. O Brasil e a Petrobras passaram a ocupar um espaço que antes pertencia ao Oriente Médio.
O FMI, que em janeiro estimava crescimento de 1,6% para o Brasil, revisou para 1,9% em abril. O fundo atribuiu a alta ao aumento das receitas com exportações de petróleo e commodities. Com isso, o Brasil voltou à 10ª posição entre as maiores economias do mundo, ultrapassando o Canadá. Brasil, Argentina e Guiana devem responder por cerca de 50% do crescimento da extração global de petróleo em 2026, com novas plataformas de pré-sal, expansão de Vaca Muerta na Argentina e o projeto Stabroek na Guiana colocando o Atlântico Sul no centro do mapa energético mundial.
O que pode dar errado
O benefício é real. Mas tem prazo de validade.
A taxa Selic está em 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas. O custo interno do crédito segura o investimento produtivo. O crescimento que o Brasil experimenta agora é puxado por commodities, não por aumento de produtividade ou diversificação industrial. A China absorve a maior parte das exportações brasileiras: se o conflito pesar mais sobre a economia chinesa, o Brasil sente. O petróleo que vai bem hoje pode ser acompanhado por queda na demanda por minério de ferro, soja e celulose.
O Brasil está, por ora, no lugar certo na hora errada para os outros. A questão é quanto tempo essa janela permanece aberta e o que a política econômica faz com ela. Uma oportunidade construída sobre a volatilidade alheia é, por definição, passageira.
Foto: IDF Spokesperson’s Unit photographer — CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons