A China responde por 31% das exportações brasileiras. Os Estados Unidos, por 11%. Quando Lula foi à Casa Branca em 2026, os dois países assinaram acordos e tiraram fotos. Quando voltou, o Brasil continuou vendendo mais para Pequim do que para Washington.
Essa é a tensão central da política externa brasileira hoje. O país faz parte do hemisfério americano, mas seu principal parceiro econômico está do outro lado do mundo. E à medida que a disputa entre EUA e China se acirra, o espaço para o Brasil navegar entre os dois diminui.
A doutrina oficial do Itamaraty chama isso de autonomia estratégica. A ideia é que o Brasil não deve se alinhar automaticamente a nenhum bloco, preservando a liberdade de negociar com todos. Nas últimas décadas, funcionou razoavelmente bem. O Brasil vendia soja para a China, comprava tecnologia dos EUA, e os dois lados toleravam a ambiguidade. O problema é que a era da tolerância está acabando.
Trump foi direto. Em 2026, as tarifas americanas segmentaram as exportações brasileiras por categoria: 46% ficaram isentas, mas aço e alumínio seguem sob tarifas setoriais. Washington também mapeou as reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos. O Brasil detém 23% das reservas mundiais de terras raras e 94% das reservas de nióbio. Para os americanos, esses recursos não podem cair inteiramente na órbita chinesa.
A China, por sua vez, não perdeu tempo. Com os EUA aplicando sanções e restrições tecnológicas ao redor do mundo, Pequim acelerou a diversificação de fornecedores. O Brasil foi diretamente beneficiado: as exportações de petróleo para a China cresceram 122% no primeiro trimestre de 2026. As compras de soja e minério de ferro seguem no mesmo ritmo. A China não pede alinhamento político explícito, mas financia infraestrutura, assina contratos de longo prazo e constrói dependências graduais.
A disputa já chegou nas eleições. Analistas de política internacional observam que tanto EUA quanto China estão atentos à corrida presidencial de 2026 no Brasil. O país que influenciar quem governa a maior economia da América Latina a partir de 2027 ganha um ativo geopolítico relevante. Técnicas sofisticadas de interferência política, segundo o Washington Brazil Office, estão sendo preparadas para o ciclo eleitoral brasileiro com volume e recursos inéditos.
O que o Brasil realmente quer
A política externa do governo Lula aposta em um sistema internacional multipolar, onde organismos como a ONU e o BRICS sirvam de contrapeso tanto aos EUA quanto à China. É uma aposta coerente com a história diplomática brasileira. O problema é que multipolaridade pressupõe equilíbrio de poder, e o mundo de 2026 está cada vez menos equilibrado.
O Brasil tem ativos reais para negociar. Território, recursos naturais, mercado consumidor de 215 milhões de pessoas, potência agrícola, reservas de minerais que os dois lados precisam. O que falta é uma estratégia clara sobre o que o Brasil quer em troca. Autonomia sem agenda vira passividade. E passividade, num mundo onde as grandes potências estão redesenhando as regras, tem custo.
A janela para o Brasil definir sua posição, em vez de ter ela definida por outros, ainda está aberta. Mas não por muito tempo.
Foto: Francisco Domingos — CC0, via Wikimedia Commons