A guerra na Ucrânia completou mais de quatro anos. A linha de frente se move em quilômetros, às vezes em metros. Cidades trocam de mãos depois de meses de combate. E o mundo, que em 2022 parou para acompanhar, aprendeu a conviver com o conflito como ruído de fundo da ordem internacional.
Mas o que acontece na Ucrânia em 2026 não é estagnação. É uma guerra de desgaste com momentos de ruptura, e os sinais mais recentes apontam para pressão crescente sobre as posições ucranianas.
No eixo de Zaporizhzhia, forças russas avançam e estão a menos de 10 quilômetros de Orikhiv. Na batalha por Kostiantynivka, as defesas ucranianas mostram sinais de colapso. Projeções militares indicam que a cidade pode cair em duas semanas. A Rússia atacou depósitos de petróleo na região de Rivne para cortar a logística ucraniana no noroeste. A Ucrânia respondeu atingindo infraestrutura de combustível em Feodossia, na Crimeia, agravando a escassez de gasolina na península ocupada.
A Crimeia é um problema persistente para a Rússia. A peninsula, anexada em 2014, enfrenta crise de combustível que afeta tanto a logística militar quanto a vida civil. Ataques ucranianos a pontos de suprimento têm sido eficazes o suficiente para criar pressão real, mesmo sem a retomada territorial que Kyiv não consegue executar no campo de batalha.
O contexto político complicou ainda mais o quadro. Em novembro de 2025, os Estados Unidos apresentaram uma proposta de paz controversa que, segundo relatos, exigia concessões territoriais significativas da Ucrânia. A proposta dividiu aliados europeus e gerou resistência em Kyiv. A Europa, que havia prometido militarização acelerada depois da ameaça russa, vem entregando bem menos do que o discurso. Os gastos em defesa subiram, mas a capacidade industrial de produção de armamentos ainda é uma fração do necessário para sustentar a Ucrânia no longo prazo.
Para o Brasil, a guerra na Ucrânia não é um conflito distante. O país é um dos maiores exportadores de grãos do mundo, e a interrupção dos fluxos de trigo e girassol ucranianos abriu mercados que o agronegócio brasileiro ocupou. As relações com a Rússia, maior exportadora de fertilizantes do planeta, também têm peso direto: o Brasil importa mais de 20% dos seus fertilizantes de fornecedores russos. Qualquer escalada que afete esse fluxo chega no custo da produção agrícola brasileira.
Onde o conflito pode ir
Os dois cenários mais prováveis são igualmente incômodos. No primeiro, a guerra continua indefinidamente como conflito de baixa intensidade, com perdas constantes de ambos os lados e nenhuma resolução política à vista. No segundo, um colapso da frente ucraniana força negociações em condições desfavoráveis para Kyiv, consolidando ganhos territoriais russos.
O que parece pouco provável é uma vitória ucraniana capaz de recuperar Crimeia ou Donbas. Sem isso, qualquer cessação de hostilidades deixa o conflito congelado, como aconteceu na Geórgia em 2008 e como pode acontecer aqui. Conflitos congelados não são paz. São apenas uma pausa na qual as partes se rearmam.
A Europa aprendeu tarde que segurança custa caro. O Brasil, que depende dos fluxos de commodities e fertilizantes que esta guerra distorce, ainda não decidiu o que pensa a respeito.
Foto: President Of Ukraine from Україна — Public domain, via Wikimedia Commons