O Brasil detém 94% das reservas mundiais de nióbio. É o segundo maior detentor de reservas de terras raras do mundo, com 23% do total global. Tem 26% das reservas mundiais de grafita e ocupa a terceira posição em reservas de níquel. A demanda por todos esses minerais está projetada para quadruplicar até 2040.
Não é exagero dizer que o subsolo brasileiro guarda parte das chaves da transição energética global.
Minerais críticos é o nome que governos e empresas dão aos recursos que são simultaneamente indispensáveis para tecnologias estratégicas e escassos fora de poucos países. Lítio, nióbio, cobalto, grafita, terras raras, níquel. Sem eles, não há bateria de carro elétrico, não há turbina eólica, não há chip avançado, não há motor de caça militar de nova geração. A eletrificação da economia global e a corrida por supremacia tecnológica dependem diretamente desses recursos.
A concentração geográfica é o problema. Hoje, a China controla mais de 60% do processamento mundial de minerais críticos, mesmo quando as reservas estão em outros países. Isso dá a Pequim uma alavanca enorme sobre cadeias produtivas que vão de painéis solares a mísseis. Os EUA, a União Europeia e o Japão passaram a última década tentando reduzir essa dependência. O Brasil entrou na lista de prioridades de todos eles.
Em 2026, o debate político brasileiro sobre o tema ganhou escala. Hugo Motta escreveu em artigo publicado no O Globo que o Brasil não pode se limitar a exportar riqueza bruta. A demanda existe, os recursos existem, mas o valor agregado vai embora junto com o minério. Transformar nióbio em aço especial dentro do Brasil, ou grafita em anodos para baterias, muda completamente a equação econômica. A pergunta é se o país tem capacidade industrial, política de longo prazo e investimento para fazer essa transição.
Os números são significativos. A corrida global pelos minerais críticos deve demandar US$ 21,3 bilhões em investimentos no Brasil até 2030. Parte desse capital vem de empresas americanas que querem garantir acesso às reservas antes que a China as contrate. Parte vem da própria China, que já tem presença consolidada em projetos de lítio no norte do país. Os dois lados do conflito geopolítico estão chegando ao mesmo lugar, com chequebooks e contratos de longo prazo.
Recurso estratégico, não apenas exportação
O Brasil já passou por isso antes. Décadas de exportação de minério de ferro transformaram a Vale numa das maiores mineradoras do mundo, mas o aço ficou para os outros processarem. O café saiu como commodity e voltou como produto de marca. O petróleo do pré-sal era para financiar saúde e educação. A história dos recursos naturais brasileiros é marcada pela distância entre o potencial anunciado e o valor efetivamente capturado.
Com minerais críticos, o ciclo se repete em velocidade acelerada. A janela para construir capacidade de processamento e posicionamento estratégico existe agora, enquanto a demanda cresce e os preços sustentam investimento. Mas janelas fecham. E quando fecharem, o Brasil terá exportado mais uma vez a matéria-prima e deixado para outros o valor que ela poderia gerar.
Foto: Pierre Markuse — CC BY 2.0, via Wikimedia Commons