O Atlântico Sul ocupa cerca de 40 milhões de quilômetros quadrados. Suas águas conectam a costa brasileira à África Ocidental, ao Cabo da Boa Esperança e às rotas que ligam o Pacífico ao Mediterrâneo. Por ele passa parte significativa do comércio global de petróleo, grãos, minérios e manufaturados. E ele é o entorno estratégico mais imediato do Brasil.

O Brasil nunca tratou o Atlântico Sul com a seriedade que ele merece.

A explicação histórica é conhecida. O país foi colônia, depois reino, depois república sem grandes ameaças externas nas fronteiras marítimas. A Marinha brasileira desenvolveu capacidade costeira e fluvial, mas não projeção oceânica. O pensamento estratégico brasileiro ficou durante décadas voltado para o continente, para as fronteiras terrestres, para a Amazônia. O oceano ficou em segundo plano.

O mundo de 2026 torna esse descaso mais caro. A China aumentou sua presença naval no Atlântico Sul de forma consistente nos últimos dez anos. Navios de pesquisa, acordos portuários, parcerias com países africanos lusófonos e francófonos, contratos de infraestrutura que incluem acesso a instalações logísticas. Pequim não tem base naval no Atlântico Sul, mas está construindo a presença que precede uma. A Argentina, após os acordos recentes com o Reino Unido e os Estados Unidos, reorientou parte de sua política de defesa para o Atlântico Sul de uma forma que exclui o Brasil das conversas principais.

Há recursos concretos em jogo. O pré-sal brasileiro é a maior descoberta de petróleo em águas profundas da história recente. O Golfo da Guiné, na costa africana, tem reservas comparáveis. Cabos submarinos de fibra óptica que conectam América do Sul, Europa e África cruzam o Atlântico Sul. Rotas de navegação alternativas ao Estreito de Hormuz e ao Canal de Suez passam pelo Cabo e dependem da segurança dessas águas.

O Brasil é o arquiteto da ZOPACAS, a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, criada em 1986. O conceito era manter a região livre de armas nucleares e conflitos de potências externas. Foi uma ideia diplomática relevante para a época. O problema é que a ZOPACAS é uma declaração de intenções, não uma aliança com força real. Nenhum dos 24 países membros tem capacidade militar para fazer valer os princípios que assinou.

O que uma estratégia real exigiria

Uma política brasileira séria para o Atlântico Sul precisaria de algumas coisas que hoje não existem. Capacidade naval de patrulha oceânica e não apenas costeira. Acordos de defesa mais densos com Angola, Moçambique, Cabo Verde e Namíbia, países lusófonos ou parceiros naturais na costa africana. Posição ativa nos debates sobre governança de cabos submarinos e rotas marítimas. E, fundamentalmente, a disposição de financiar tudo isso.

O Brasil não tem nenhum desses elementos de forma consistente. Tem intenções e documentos doutrinários. Falta o orçamento, a continuidade política e, acima de tudo, a percepção de urgência.

O Atlântico Sul está sendo preenchido por outros. O Brasil pode participar disso como protagonista ou observar como o seu entorno estratégico mais imediato vira espaço de disputa alheia. A escolha, por ora, é de omissão.

Foto: Desconhecido — CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

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