Em fevereiro de 2026, o governo americano publicou uma nova ordem executiva reorganizando o regime de tarifas sobre importações. Para o Brasil, o resultado foi um mapa com três zonas distintas. 46% das exportações brasileiras para os EUA, o equivalente a US$ 17,5 bilhões, ficaram isentas de qualquer sobretaxa adicional. Entre elas, aeronaves, que passaram a ter tarifa zero. Outros 25%, aproximadamente US$ 9,3 bilhões, ficaram sujeitos à tarifa global de 10% que Trump aplica a praticamente todos os parceiros comerciais. E os 29% restantes, US$ 10,9 bilhões, continuam sob tarifas setoriais de segurança nacional. Aço e alumínio estão nessa última categoria.
O quadro é melhor do que poderia ser. Mas não é isento de custos.
Para entender o que está acontecendo, é preciso entender o que Trump está tentando fazer. As tarifas não são protecionism por protecionism. São uma política industrial financiada pelo comprador estrangeiro. A ideia central é usar o acesso ao mercado americano como alavanca para forçar a re-industrialização dos EUA, trazer fábricas de volta, reduzir dependências de cadeias produtivas estrangeiras especialmente as chinesas. As tarifas sobre aço e alumínio existem porque Washington quer produção doméstica desses insumos, e não porque o Brasil fez algo errado.
A Suprema Corte americana complicou o plano. Em 2025, decidiu que as tarifas “recíprocas” baseadas em legislação de emergência de segurança nacional eram inconstitucionais. Isso forçou o executivo a reorganizar o regime, daí o decreto de fevereiro. O resultado prático é que parte das sobretaxas mais agressivas que Trump queria aplicar foi bloqueada judicialmente, e o Brasil ficou numa posição relativamente menos prejudicada do que países como China, que enfrenta tarifas de mais de 100% em vários setores.
A Embraer é o caso mais visível do lado positivo. Com aeronaves entrando com tarifa zero nos EUA, a empresa, que já é competitiva no mercado americano de jatos regionais, tem condições de ampliar participação. O agronegócio, que exporta principalmente soja e carnes para a China e não para os EUA, é pouco afetado pelas tarifas americanas diretamente. O problema está nos setores industriais: manufatura de aço, alumínio e produtos siderúrgicos que usam os EUA como mercado relevante enfrentam pressão de preço que vai exigir realocação de destinos de exportação.
O efeito mais difícil de quantificar é o indireto. Quando os EUA encarecem importações de um conjunto de países, esses países precisam redirecionar sua produção para outros mercados. Se o México, o Vietnam e a Alemanha passam a buscar compradores alternativos para produtos que antes iam para os EUA, eles chegam nos mesmos mercados que o Brasil já ocupa. A competição aumenta, os preços caem, e o Brasil sofre o efeito colateral de uma guerra comercial que não é sua.
O que negociar
O Brasil tem uma posição negociadora melhor do que parece. Os EUA precisam das reservas brasileiras de minerais críticos. Precisam de uma alternativa agrícola confiável. Precisam de parceiros no hemisfério ocidental que não sejam a China. O Itamaraty tem isso para oferecer.
O que falta é converter essa posição em acordos concretos: isenções para mais categorias de exportação, acesso a programas de financiamento de infraestrutura americanos, acordo de minerais críticos que garanta fornecimento preferencial em troca de tarifas menores. A janela existe. Mas precisa ser usada antes que Washington decida que as condições mudaram.
Foto: Shealeah Craighead — Public domain, via Wikimedia Commons