A língua portuguesa é falada por cerca de 300 milhões de pessoas. É a quinta ou sexta língua mais falada do mundo, dependendo do critério. Está presente nos cinco continentes, é língua oficial de nove países e cooficial em outros três. Projeções demográficas indicam que, até 2100, será falada por mais de 500 milhões de pessoas, impulsionada principalmente pelo crescimento populacional africano.

E, apesar de tudo isso, a lusofonia é um projeto que ainda não se cumpriu.

Lusofonia não é apenas uma língua compartilhada. É a ideia de que Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial formam um espaço civilizacional com história, cultura e interesses em comum. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, foi criada em 1996 para dar forma institucional a essa ideia. Reúne hoje 270 milhões de pessoas, tem sede em Lisboa e realiza cúpulas regulares com agendas de cooperação em educação, saúde e cultura.

O problema é que a CPLP é mais protocolo do que potência. O bloco não tem capacidade de articulação econômica semelhante à União Europeia, nem peso diplomático coletivo comparável ao BRICS. Os países membros têm economias muito diferentes, interesses divergentes em vários temas e uma integração comercial interna abaixo do potencial. Portugal olha para a Europa como prioridade. Angola e Moçambique têm China como principal parceiro econômico. O Brasil é dez vezes maior demograficamente que todos os outros membros juntos, o que cria desequilíbrio estrutural dentro do bloco.

O Barômetro da Lusofonia, lançado em janeiro de 2026 em Lisboa para marcar os 30 anos da CPLP, produziu um retrato incomum do espaço lusófono. Saúde e desemprego aparecem como os principais problemas nos países do bloco. A língua compartilhada é valorizada como identidade, mas não se traduz ainda em integração econômica ou mobilidade significativa entre os países.

O ativo mais subestimado da lusofonia é a África. Moçambique, Angola e os países menores do bloco africano têm as taxas de crescimento demográfico mais altas do mundo. Em 2050, a maioria dos falantes nativos de português vai estar no continente africano. Isso muda o centro de gravidade da lusofonia de forma irreversível. O Brasil, que historicamente olha para a África com benevolência simbólica mas pouco investimento real, está perdendo a janela para ser o parceiro estratégico preferencial desses países no momento em que eles mais crescem.

A China já chegou. Financiou infraestrutura em Angola, tem presença comercial em Moçambique, construiu estádios em Guiné-Bissau. Os chineses não falam português, mas assinam contratos. O Brasil fala a mesma língua, tem história e cultura compartilhada, e continua exportando pouco para esses mercados e investindo menos ainda.

O que falta para a lusofonia ser um projeto real

A língua cria uma ponte natural. Usar essa ponte como instrumento econômico e diplomático real exige algumas coisas simples que ainda não existem. Reconhecimento automático de diplomas entre os países do bloco. Acordo de livre comércio progressivo que comece pelos setores complementares. Linhas de crédito do BNDES direcionadas a projetos em países lusófonos africanos. Presença consular e comercial brasileira nos mercados que vão crescer nas próximas décadas.

Lusofonia não vai virar potência global pela força da sentimentalidade. Vai virar, se vier a ser, pela construção paciente de relações econômicas que dão conteúdo ao que hoje é principalmente cultura e nostalgia. O Brasil tem o tamanho, os recursos e a posição para liderar esse processo. Falta decidir que isso importa.

Foto: Alvesgaspar — CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

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