Doutrina Donroe: o que é e o que significa para a América Latina

Foto: The original uploader was Bobby131313 at English Wikipedia., Chester Beach for coin, supposedly, though he may have plagiarized Raphael Beck (see article) — Public domain, via Wikimedia Commons

Em janeiro de 2026, um documento de política externa circulou pelos bastidores de Washington com um nome que misturava homenagem e aviso: Doutrina Donroe. O neologismo juntava Donald Trump com James Monroe, o presidente que, em 1823, estabeleceu que as Américas seriam zona de influência exclusiva dos Estados Unidos. Dois séculos depois, Trump ressuscitava o espírito da doutrina, com uma diferença fundamental. O alvo desta vez não era a Europa colonial. Era a China e a Rússia, que avançam no continente enquanto Washington cobra o preço da lealdade.

A Doutrina Monroe original era defensiva no tom, ainda que intervencionista na prática. Ela dizia: potências estrangeiras, fiquem fora do nosso hemisfério. O Corolário Roosevelt, de 1904, foi além e legitimou a intervenção americana direta em países latino-americanos que não pagassem suas dívidas ou mantivessem “ordem” interna. A Doutrina Donroe retoma essa lógica do Big Stick, mas com argumentos modernos: o combate ao narcotráfico, a contenção da China e o controle das rotas de minerais críticos.

O núcleo da política é simples. Os EUA querem garantir que nenhuma potência rival consolide presença militar, econômica ou de infraestrutura significativa na América Latina. Qualquer governo que aceite investimento chinês em portos, aeroportos, redes de telecomunicações ou mineração passa a ser tratado como parceiro não confiável. A pressão não vem apenas em forma de discurso. Vem em forma de tarifas, como as aplicadas ao Brasil e outros países em 2025, e de operações militares como as conduzidas contra o regime de Maduro na Venezuela.

O “Escudo das Américas”, iniciativa lançada em paralelo, propõe uma aliança militar hemisférica de geometria variável. Países que aderem recebem acesso a equipamentos e treinamento. Os que recusam entram em uma categoria informal de vigilância elevada. A iniciativa replica, no hemisfério ocidental, a lógica da OTAN, mas sem o compromisso coletivo do artigo 5 e com muito mais assimetria de poder.

Para o Brasil, o dilema é estrutural. O país tem com a China seu maior parceiro comercial, responsável por 31% das exportações, e com os EUA o segundo maior destino, em 11%. Nenhum governo brasileiro pode se dar ao luxo de romper com Pequim, mas a Doutrina Donroe cria um custo crescente para essa aproximação. As tarifas aplicadas por Trump sobre exportações brasileiras em 2026 foram o primeiro sinal concreto de que Washington está disposto a usar o poder econômico como instrumento de pressão política.

A linguagem da Doutrina Donroe mistura segurança e negócios de um modo que é novo na diplomacia americana. Recursos estratégicos, controle de rotas marítimas, acesso a mercados, tudo está na mesa ao mesmo tempo. O discurso de Monroe prometia proteger as Américas da colonização europeia. O discurso de Trump promete protegê-las da influência chinesa e russa, mas a lógica implícita é a mesma: quem define o que é ameaça é Washington, e quem decide como reagir também.

A América Latina vive uma tensão clássica de quem está no meio de uma disputa de grandes potências sem poder ficar neutro. Os países menores tendem a se alinhar com quem lhes oferece mais, mais rápido. Os maiores, como o Brasil, tentam a autonomia estratégica, que é o nome elegante para nadar entre dois tubarões sem ser devorado por nenhum deles. A Doutrina Donroe torna essa natação mais difícil. O espaço para a ambiguidade está encolhendo.

Monroe disse, em 1823, que o continente americano não estava mais disponível para novos projetos coloniais europeus. Trump diz, dois séculos depois, que o continente americano não está disponível para projetos chineses e russos. A diferença é que, desta vez, o continente já tem suas próprias potências com projetos próprios. E elas não foram consultadas.

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