Brasil e África: o que está em jogo na nova política africana do Itamaraty

Foto: Data: Marc Imhoff/NASA GSFC, Christopher Elvidge/NOAA NGDC; Image: Craig Mayhew and Robert Simmon/NASA GSFC — Public domain, via Wikimedia Commons

No dia 25 de maio de 2026, o Palácio Itamaraty recebeu embaixadores e ministros de dezenas de países africanos para o Seminário Brasil-África 2026. O evento foi organizado em comemoração ao Dia da África e marcou o relançamento do ProÁfrica, programa de cooperação científica e tecnológica que havia sido suspenso em 2011. O governo injetou R$ 25 milhões em novas chamadas do CNPq voltadas para parcerias com universidades e centros de pesquisa africanos. Não foi um grande gesto. Foi um passo concreto numa direção que o Brasil negligenciou por mais de uma década.

A África tem 1,4 bilhão de habitantes hoje e deve chegar a 2,5 bilhões em 2050. Tem as maiores reservas de minerais críticos do planeta. Tem costas no Atlântico Sul e no Oceano Índico. Tem seis dos dez países com crescimento de PIB mais acelerado do mundo nos últimos dez anos. É, por qualquer métrica relevante, o continente mais estratégico da segunda metade do século 21.

O Brasil chegou tarde nessa percepção. A política africana do Itamaraty foi intensa no governo Lula 1 e 2, quando o país abriu embaixadas em países africanos, ampliou cooperação técnica e construiu pontes com a União Africana. Depois de 2016, a presença brasileira minguou. Embaixadas foram fechadas ou reduzidas. O orçamento de cooperação caiu. O continente saiu do radar da política externa.

A China preencheu o espaço. Hoje é o maior parceiro comercial de 53 países africanos. Construiu ferrovias no Quênia e na Etiópia, portos em Djibuti e em Angola, refinarias no Níger, hidrelétricas no Congo. O investimento chinês no continente em 2025 foi estimado em US$ 47 bilhões. O Brasil, nesse mesmo período, ficou em US$ 1,4 bilhão.

A vantagem comparativa que o Brasil tem com a África é cultural e histórica. A língua portuguesa conecta o Brasil a Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e Guiné Equatorial. O Brasil tem expertise em agricultura tropical, medicina preventiva, construção de habitação popular e educação técnica, exatamente as áreas que os países africanos mais demandam. Essa vantagem existe, mas não se transforma sozinha em parceria.

O Atlântico Sul é a fronteira estratégica do Brasil, e a África Ocidental está do outro lado desse oceano. Toda a discussão sobre soberania marítima, rotas comerciais e segurança energética brasileira passa pela relação com o continente africano. Ignorar a África é ignorar metade do tabuleiro em que o Brasil precisa jogar.

O Seminário de maio foi um sinal de retomada. O ProÁfrica relançado, as embaixadas que estão sendo reabertas, os acordos de cooperação técnica em ciência e agricultura: tudo isso tem valor real. Mas o Brasil precisa decidir se quer ser um parceiro estratégico da África ou um participante ocasional. Parceiro estratégico exige presença permanente, investimento consistente e uma política de longo prazo que sobreviva a mudanças de governo. O Brasil sabe fazer isso. A questão é se tem vontade política para fazê-lo agora, enquanto ainda há espaço.

Foto: Data: Marc Imhoff/NASA GSFC, Christopher Elvidge/NOAA NGDC; Image: Craig Mayhew and Robert Simmon/NASA GSFC — Public domain, via Wikimedia Commons