O dólar americano responde por cerca de 58% das reservas cambiais globais. Mais de 40% do comércio internacional é cotado nele. A maior parte dos contratos de petróleo, commodities e dívida soberana é denominada em dólar. Isso não é acidente. É o resultado de décadas de construção institucional americana e do papel dos EUA como garantidor da ordem econômica global.

Mas a relação entre o mundo e o dólar está mudando. Devagar, de forma desigual, com muita resistência. E o BRICS está no centro desse movimento.

A palavra desdolarização descreve o processo pelo qual países e empresas reduzem sua dependência do dólar americano nas transações internacionais. Não se trata de eliminar o dólar — ninguém tem capacidade de fazer isso no curto prazo — mas de criar rotas alternativas para que o comércio e os pagamentos globais possam acontecer sem passar pelo sistema financeiro americano.

O gatilho foi a Rússia. Quando os EUA congelaram US$ 300 bilhões em reservas russas após a invasão da Ucrânia em 2022, o restante do mundo assistiu e tomou nota. Se o dólar podia ser usado como arma, manter reservas nele significava uma vulnerabilidade. Países como China, Índia, Irã, Arábia Saudita e o próprio Brasil começaram a acelerar arranjos alternativos.

Rússia e China já realizam 99,1% do seu comércio bilateral em rublos e yuans. O Brasil e a China movimentam cerca de US$ 100 bilhões por ano em transações liquidadas em moedas locais, fora do circuito do dólar. O Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS alocou US$ 30 bilhões para projetos que incentivam esse movimento.

O passo mais ambicioso é o BRICS Pay, um sistema de pagamentos descentralizado baseado em blockchain, desenhado para conectar as economias do bloco sem depender da rede SWIFT. Cada país controla sua própria rede, o que torna o sistema teoricamente imune a sanções externas. Uma proposta paralela, chamada “Unit”, sugere uma criptomoeda com 40% do valor lastreado em ouro e o restante em um pacote de moedas nacionais dos países membros.

Por que é difícil e por que importa mesmo assim

A desdolarização total é uma ilusão de curto prazo. O dólar tem décadas de infraestrutura construída ao redor dele: contratos, derivativos, reservas, sistemas de liquidação, confiança institucional. Substituir isso é um processo de gerações, não de anos. Além disso, o BRICS não é um bloco homogêneo. India e China têm interesses conflitantes. Brasil e Rússia estão em situações geopolíticas bem diferentes. Coordenar uma moeda comum exige convergência que hoje não existe.

Mesmo assim, o movimento importa. Não porque vai derrubar o dólar, mas porque está criando opções onde antes não havia. Quando um país pode liquidar uma exportação em yuan ou real sem passar por Nova York, ele tem mais poder de negociação. Para o Brasil, que é exportador de commodities compradas principalmente pela China, ter alternativas de pagamento que não dependem do sistema financeiro americano é um ativo estratégico real.

O mundo não vai sair do dólar. Mas vai depender menos dele. E essa diferença de grau, com o tempo, muda o tabuleiro.

Foto: Presidential Press and Information Office — CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

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