Em maio de 2026, o governo americano restringiu a exportação do chip H200, da NVIDIA, para a China. Semanas antes, o Departamento de Comércio havia bloqueado o fornecimento de equipamentos de fabricação para a Hua Hong, a segunda maior produtora de semicondutores chinesa. Em paralelo, o governo americano descobriu que chips avançados estavam chegando à China via subsidiárias de empresas sediadas na Malásia, e fechou essa brecha com novas exigências de licença.

A guerra dos chips tem uma nova batalha a cada mês. E cada batalha é mais técnica e mais consequente que a anterior.

Semicondutor é qualquer material com propriedades elétricas intermediárias entre condutor e isolante. Na prática, o que o mundo chama de “chip” é um circuito integrado gravado em silício com uma densidade de transistores que desafia a física. O chip mais avançado fabricado hoje, no nó de 2 nanômetros, cabe na ponta de um alfinete e contém bilhões de transistores. A potência computacional resultante é o que viabiliza inteligência artificial, comunicações militares criptografadas, sistemas de guia de precisão e toda a eletrônica de consumo moderna.

Quem controla a fabricação desses chips controla a fronteira tecnológica do século XXI. E hoje, essa fronteira está principalmente em Taiwan, com a TSMC, e em equipamentos de litografia fabricados por uma única empresa holandesa, a ASML. Sem as máquinas da ASML, não se fabrica chip avançado. Os EUA convenceram os Países Baixos a não vender essas máquinas para a China. É o bloqueio central da estratégia americana.

A China está respondendo em múltiplas frentes. A Huawei anunciou em 2026 uma nova arquitetura para seus chips Kirin que, segundo a empresa, pode reduzir a distância tecnológica em relação a TSMC e Intel até 2031. O investimento chinês em pesquisa de semicondutores é massivo. O objetivo declarado é a autossuficiência em chips avançados, mesmo sem acesso às máquinas americanas e holandesas. Pesquisadores chineses estão desenvolvendo abordagens alternativas de litografia que não dependem da ASML.

O timing importa. A China está a pelo menos cinco anos de distância do nó tecnológico atual. Talvez dez. Os EUA querem usar esse período para solidificar a vantagem americana e construir capacidade doméstica de fabricação, o que está sendo feito com bilhões em subsídios para a Intel e para fábricas da TSMC nos Estados Unidos. É uma corrida simultânea: os americanos correm para ficar na frente, os chineses correm para chegar.

O que está em jogo vai além de mercado de eletrônicos. Chips avançados são infraestrutura de poder. Os sistemas de armas de precisão americanos dependem deles. A superioridade em inteligência artificial, que está transformando tanto a guerra quanto a economia, depende de poder computacional que só chips avançados fornecem. Quem fabrica os melhores chips tem vantagem militar e econômica estrutural. É por isso que Washington trata isso como questão de segurança nacional, não de comércio.

O Brasil nessa disputa

O Brasil não tem indústria de semicondutores. Nunca teve. Importa chips embutidos em produtos acabados, da China, dos EUA, do Japão e da Coreia do Sul. Uma crise nessa cadeia se traduz imediatamente em falta de componentes para a indústria nacional de eletrônicos, automóveis e bens de capital.

O país tem, contudo, algo que todos os fabricantes de chips precisam: minerais críticos. Grafita, nióbio, terras raras, lítio. A fabricação de semicondutores depende de materiais especiais que o Brasil tem em abundância. Esse é o ponto de entrada do Brasil na disputa, não como fabricante, mas como fornecedor estratégico dos insumos que ambos os lados precisam. A questão é se o Brasil vai usar essa posição para construir acordos que lhe garantam acesso seguro à tecnologia que não consegue produzir, ou se vai exportar os minerais e continuar importando os chips.

Foto: Sangitiana Fararano — CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

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