Entre 1945 e 1991, o mundo foi bipolar. Dois blocos, dois modelos, duas potências nucleares com capacidade de destruir o planeta. A queda da União Soviética encerrou esse equilíbrio e inaugurou uma fase de domínio americano sem precedentes. Historiadores chamaram de “momento unipolar”. Francis Fukuyama chegou a falar no fim da história.
Não durou. O que o mundo vive hoje tem um nome: multipolaridade. E entender o que ela significa é entender por que o Brasil ocupa uma posição incomum no tabuleiro internacional de 2026.
Multipolaridade significa que o poder global está distribuído entre múltiplos centros, sem que nenhum deles seja dominante o suficiente para ditar as regras sozinho. Os Estados Unidos ainda têm a maior economia nominal do mundo, o maior gasto militar e a moeda de reserva global. Mas não conseguem mais conduzir guerras, impor sanções ou construir coalizões sem resistência relevante. A China cresceu até se tornar a segunda maior economia e o maior parceiro comercial de mais de 130 países. A Rússia mantém capacidade nuclear de primeira linha e influência sobre uma faixa contínua de território desde o Báltico até o Pacífico. A Índia ultrapassa a China em população e cresce como potência tecnológica e militar. O BRICS, que em 2024 recebeu novos membros, representa hoje quase 50% da população mundial e mais de 40% do PIB global medido pela paridade de poder de compra.
O que muda quando o poder se distribui assim? Primeiro, as regras ficam contestadas. A ordem liberal construída após 1945, com ONU, FMI, Banco Mundial e OMC no centro, foi desenhada por americanos e europeus para refletir seus interesses. Países que não tiveram assento naquela mesa agora têm força suficiente para questionar as regras do jogo. Segundo, as alianças ficam mais fluidas. Países que antes seguiam automaticamente um dos dois blocos agora negociam caso a caso. Terceiro, os conflitos locais ficam mais complicados de resolver. Sem um árbitro hegemônico, cada potência protege seus aliados e bloqueia intervenções nos outros.
Para o Brasil, a multipolaridade é uma oportunidade e uma armadilha ao mesmo tempo. Oportunidade porque o país tem ativos reais, território, recursos, mercado, posição geográfica, e num mundo multipolar esses ativos valem mais do que numa ordem hierárquica rígida. A doutrina da autonomia estratégica, que orienta o Itamaraty desde os anos 1970, foi feita exatamente para esse tipo de ambiente: navegar entre potências sem se subordinar a nenhuma.
A armadilha é que multipolaridade não é estabilidade. É competição sem árbitro. Quando EUA e China disputam o acesso às reservas de minerais críticos brasileiros, o Brasil tem poder de barganha, mas também está no meio de um conflito que pode exigir escolhas que a autonomia estratégica evita fazer. Quando as tarifas americanas segmentam exportações por categoria e a China assina contratos de longo prazo para commodities, o Brasil está sendo cortejado por dois lados que eventualmente vão querer respostas.
A multipolaridade cria espaço para países médios com ativos relevantes. O Brasil tem esses ativos. A questão é se tem também a clareza estratégica para transformar espaço em influência real, ou se vai ocupar o lugar de um país que todo mundo quer mas ninguém respeita o suficiente para ouvir.
Foto: Mojnsen — CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons