Sahel: como a saída da França reconfigurou a influência global na África

Foto: Astronaut photograph ISS072-E-400084 was acquired on December 21, 2024, with a Nikon Z9 digital camera using a focal length of 200 millimeters. It is provided by the ISS Crew Earth Observations Facility and the Earth Science and Remote Sensing Unit, Johnson Space Center. The image was taken by a member of the Expedition 72 crew. The image has been cropped and enhanced to improve contrast, and lens artifacts have been removed. The International Space Station Program supports the laboratory as part of the ISS National Lab to help astronauts take pictures of Earth that will be of the greatest value to scientists and the public, and to make those images freely available on the Internet. Additional images taken by astronauts and cosmonauts can be viewed at the NASA/JSC Gateway to Astronaut Photography of Earth. Caption by Justin Wilkinson, Texas State University, Amentum-JETS II Contract at NASA-JSC. — Public domain, via Wikimedia Commons

Em janeiro de 2025, a França fechou sua última base militar no Chade, no acampamento Kosseï, em N’Djamena. Cerca de mil soldados foram retirados. Era o fim de uma presença militar de sessenta anos no coração do Sahel. Nos anos anteriores, o exército francês já havia saído do Mali, do Burkina Faso e do Níger. A retirada não foi pacífica. Em alguns casos, aviões militares franceses foram expulsos pelos governos locais com prazo de 48 horas. Em outros, multidões nas ruas celebraram a saída.

O Sahel é a faixa de terra que separa o deserto do Saara da savana africana. Atravessa uma dezena de países, do Atlântico ao Mar Vermelho, e concentra alguns dos conflitos mais violentos e negligenciados do planeta. Desde 2012, a região passou por uma série de golpes militares em Mali, Burkina Faso, Níger e Chade. Os governos que chegaram ao poder nesses golpes compartilharam uma característica: todos pediram a saída das tropas francesas.

A Operação Barkhane, missão francesa de combate ao jihadismo no Sahel, durou quase uma década e custou bilhões de euros. O resultado foi misto. Os grupos armados, em especial os afiliados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, seguiram expandindo território. A percepção popular era de que a França protegia seus interesses econômicos, sobretudo o acesso ao urânio do Níger, muito mais do que protegia os cidadãos locais.

No vácuo deixado pela saída francesa, entraram a Rússia e a China. O grupo Wagner, renomeado Africa Corps após a morte de Prigozhin, mantém cerca de 5 mil combatentes no continente. Atua no Mali, em Burkina Faso e no Sudan. Oferece segurança sem perguntas sobre direitos humanos e sem exigências de reformas políticas. É um produto que encontrou mercado.

A China chegou por outra rota: infraestrutura e investimento. Estradas, ferrovias, portos, telecomunicações. O modelo não é novidade, mas a escala é. O Sahel tem minerais que a China precisa, incluindo urânio no Níger e ouro em Mali. A presença militar russa e a presença econômica chinesa se complementam de um modo que os líderes das juntas militares locais aprenderam a usar como alavanca.

Para o Brasil, o Sahel importa por razões que vão além da África. A instabilidade da região alimenta fluxos migratórios em direção à Europa, que por sua vez afeta a política europeia e a relação da Europa com os EUA. O avanço russo na África central diminui a influência ocidental num continente que terá 2,5 bilhões de pessoas em 2050. E o vácuo deixado pela França reconfigurou o tabuleiro do Atlântico Sul, aproximando a costa africana ocidental de atores que não têm histórico de cooperação com Brasília.

A França perdeu o Sahel por uma combinação de arrogância colonial, resultados militares fracos e desconexão com as populações locais. A Rússia chegou com uma proposta simples: segurança sem condições. A China chegou com dinheiro. O que o Ocidente ainda não encontrou é uma alternativa que respeite a soberania africana sem abrir mão dos seus interesses. Enquanto não encontra, o Sahel continua sendo o lugar onde o velho mundo colonial vai se despedir e o novo mundo multipolar vai se instalar.

Foto: Astronaut photograph ISS072-E-400084 was acquired on December 21, 2024, with a Nikon Z9 digital camera using a focal length of 200 millimeters. It is provided by the ISS Crew Earth Observations Facility and the Earth Science and Remote Sensing Unit, Johnson Space Center. The image was taken by a member of the Expedition 72 crew. The image has been cropped and enhanced to improve contrast, and lens artifacts have been removed. The International Space Station Program supports the laboratory as part of the ISS National Lab to help astronauts take pictures of Earth that will be of the greatest value to scientists and the public, and to make those images freely available on the Internet. Additional images taken by astronauts and cosmonauts can be viewed at the NASA/JSC Gateway to Astronaut Photography of Earth. Caption by Justin Wilkinson, Texas State University, Amentum-JETS II Contract at NASA-JSC. — Public domain, via Wikimedia Commons