Taiwan é uma ilha de 36 mil quilômetros quadrados no Estreito que separa o Mar da China Oriental do Mar da China Meridional. Tem 23 milhões de habitantes, uma democracia funcionando desde os anos 1990 e um PIB per capita superior ao da maioria dos países europeus. Mas o que faz Taiwan importar para o mundo inteiro não é seu tamanho nem sua política.

É a TSMC.

A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company fabrica mais de 90% dos chips mais avançados do mundo. Os processadores que rodam iPhones, data centers, inteligência artificial, sistemas de armas de precisão, satélites, carros autônomos. Nenhum país além de Taiwan tem, hoje, a capacidade de fabricar chips no nível de 3 e 2 nanômetros em escala industrial. A TSMC é o gargalo mais crítico da economia global de alta tecnologia, e ela fica numa ilha que a China considera parte do seu território.

A posição de Pequim é histórica e consistente. Taiwan é, para o Partido Comunista Chinês, uma “província renegada” que se separou ilegalmente durante a guerra civil de 1949. A China nunca renunciou ao uso da força para “reunificar” a ilha e tem aumentado a pressão militar de forma sistemática. Em 2026, exercícios navais de cerco tornaram-se rotineiros. A Força Aérea do Povo registra dezenas de incursões semanais na zona de identificação de defesa aérea taiwanesa. Não é ameaça abstrata. É preparação operacional visível.

A avaliação da comunidade de inteligência americana, revisada em 2026, é que a China não planeja executar uma invasão nos próximos dois anos. Os líderes chineses estariam avaliando que o risco de fracasso é alto demais, especialmente com a possibilidade de intervenção americana. Uma operação militar sobre Taiwan envolveria cruzar um estreito com 180 quilômetros de largura, sob fogo de uma ilha fortemente armada, com a Marinha americana e potencialmente japonesa como variável. É uma operação de altíssimo risco.

Mas “não agora” não é “nunca”. As forças armadas chinesas continuam ampliando capacidade anfíbia e de bloqueio naval. O objetivo declarado de Xi Jinping é a reunificação. E o horizonte de tempo que Pequim usa publicamente é 2049, centenário da República Popular.

As implicações econômicas de qualquer crise no Estreito de Taiwan são de escala difícil de imaginar. Estimativas conservadoras colocam o custo de uma invasão em US$ 10 trilhões de perda no PIB global. Um bloqueio parcial, sem invasão, poderia paralisar as cadeias de suprimento de semicondutores em dias. Sem chips taiwaneses, não há linha de montagem de automóveis, não há produção de smartphones, não há data center funcionando. A interdependência tecnológica global foi construída sobre a hipótese tácita de que Taiwan permanece acessível.

Para o Brasil, o risco é real mas indireto. O país não fabrica semicondutores e importa eletrônicos acabados. Uma crise em Taiwan se traduziria em encarecimento de tudo que contém processadores, de celulares a tratores. O impacto sobre a indústria de bens de capital e sobre o consumidor seria sentido em meses.

O Estreito de Taiwan é a fronteira mais perigosa do mundo hoje. Não porque a guerra seja iminente, mas porque os incentivos de Pequim não desapareceram, a dependência global da ilha só cresce, e nenhuma das partes construiu ainda um mecanismo de saída que evite a escalada. É a combinação clássica de conflito de longo prazo: interesses incompatíveis, capacidade crescente e ausência de solução diplomática à vista.

Foto: CEphoto, Uwe Aranas — CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

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