Soberania sanitária: quem controla os remédios do Brasil

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A Novo Nordisk fabrica o Ozempic, a caneta emagrecedora mais desejada do mundo. Fabrica também insulina, o medicamento que mantém vivos milhões de diabéticos no Brasil. Em 2023, a empresa dinamarquesa escolheu o que era mais lucrativo e passou a reduzir a produção de insulina para o SUS. Em 2026, anunciou que pode encerrar a fabricação local de vez, caso o governo não assine um contrato nos termos dela.

O Brasil ficou sem insulina no sistema público de saúde porque uma empresa estrangeira decidiu que outro produto era mais rentável. Essa frase resume décadas de fragilidade sanitária.

O problema não é a Novo Nordisk. O problema é que o Brasil não fabrica a matéria-prima do próprio remédio.

O insumo farmacêutico ativo, a substância que torna um medicamento eficaz, tem sigla técnica: IFA. O Brasil importa entre 90% e 95% de tudo que precisa para fabricar medicamentos e vacinas. Enquanto a China opera mais de mil fábricas de IFA, o Brasil tem 15. A Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos estima que a produção nacional representa apenas 5% do que o país consome. O restante vem, principalmente, de China e Índia.

Não foi sempre assim.

Até o final dos anos 1980, o Brasil produzia metade dos insumos farmacêuticos que consumia. Havia uma indústria farmoquímica nacional funcionando. A Biobrás, fundada em Montes Claros em 1971, chegou a ser uma das maiores fabricantes de insulina do mundo. Em 2001, foi vendida para a Novo Nordisk. A partir de 2007, a dinamarquesa passou a importar o IFA e a fazer apenas o envase no Brasil. A competência técnica foi junto com a empresa.

A abertura comercial dos anos 1990 acelerou o desmonte do resto. Os insumos chineses e indianos chegavam a preços que nenhuma fábrica nacional conseguia cobrir sem política de incentivo. As fábricas fecharam. O Estado não interveio. O conhecimento foi embora junto com os empregos.

A pandemia mostrou o preço da dependência

Em 2020, o mundo parou para comprar equipamentos de proteção individual, respiradores e insumos para vacinas ao mesmo tempo. A China, principal fornecedor global, priorizou seu próprio mercado. O Brasil, sem capacidade de produção local significativa, disputou contratos com o resto do planeta em condições desfavoráveis, pagando mais, esperando mais e dependendo da disponibilidade alheia.

A lição não era nova. Era a mesma de sempre, amplificada por uma emergência de saúde pública que não dava prazo para negociação.

Quem controla os insumos controla o acesso ao medicamento. Quando um país não produz o que precisa para tratar sua população, sua política de saúde depende da boa vontade de quem produz. Isso não é uma questão técnica. É uma questão de soberania.

O risco é estrutural e vai além da pandemia. A China introduziu, em 2023, controles de exportação sobre componentes estratégicos de diversas cadeias industriais. O setor farmacêutico não está blindado dessa dinâmica. Como acontece com outros setores onde a concentração chinesa no processamento de insumos críticos representa um instrumento de pressão geopolítica, a dependência de IFA importado deixa o sistema de saúde brasileiro exposto a decisões tomadas em Pequim, não em Brasília.

O Brasil importou USD 12,5 bilhões em produtos farmacêuticos em 2024. Esse número inclui medicamentos prontos, vacinas e insumos. É dinheiro que não circula na indústria nacional, não forma engenheiros nem pesquisadores, e não cria a competência técnica que torna um país menos vulnerável na próxima crise.

A resposta existe, mas avança devagar.

Em 2025, o Brasil retomou a produção de insulina nacional após vinte anos de interrupção. A iniciativa envolveu a Biomm, a Funed e o Bio-Manguinhos, braço industrial da Fiocruz, com transferência de tecnologia de produtores indianos e chineses. É um acerto de rota relevante. Não é, ainda, uma solução estrutural.

O governo federal lançou o Complexo Econômico-Industrial da Saúde com R$ 42 bilhões em investimentos previstos até 2026. O projeto inclui o Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (CIBS), com capacidade projetada para 120 milhões de doses de vacinas e biofármacos por ano. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) classifica o Brasil como um dos países com maior potencial para biotecnologia aplicada à saúde. Faltam, segundo especialistas, entre R$ 2 bilhões e R$ 4 bilhões em investimentos adicionais para ampliar a produção interna de IFA de forma sustentável.

O modelo de como fazer está disponível. A Índia construiu uma indústria farmacêutica nacional robusta com décadas de proteção tarifária e investimento público em P&D. Cuba desenvolveu capacidade de produção de vacinas e biofármacos que hoje exporta. A Coreia do Sul transformou sua indústria farmacêutica numa das mais competitivas da Ásia em menos de trinta anos. Todos fizeram escolhas de política industrial que o Brasil adiou.

Soberania sanitária não é abstração. É o diabético que encontra insulina na farmácia popular. É o sistema de saúde que não depende da gentileza de uma multinacional escandinava para funcionar. É a capacidade de uma nação tratar seus próprios doentes sem pedir licença a ninguém. O Brasil teve essa capacidade, abriu mão dela e está, agora, tentando reconstruir o que foi desmontado em décadas de omissão industrial. O caminho existe. A urgência, também.